
ESTÁDIO DO MORUMBI VIRA CENÁRIO DE FILME SOBRE CONQUISTAS, PROTAGONIZADO POR TORCEDORES
Luiz Paulo Biskani tinha sete anos quando sentou pela primeira vez na arquibancada do Morumbi para ver o São Paulo jogar. Era 1975. Desde então,em todos os jogos seu pai, Valdir, fazia o mesmo trajeto de casa até o estádio. Usava a mesma roupa. Ficava no mesmo lugar.
A superstição era tanta que a mãe de Luiz, Vera Helena, 63, ficou proibida por quase 40 anos de assistir a um jogo ao lado do marido e dos dois filhos. Mesmo longe de Valdir, ela não contava que ia ver a partida na casa da mãe. “Se o São Paulo ganhasse, ele diria que tinha sido um acaso. Se perdesse, a culpa seria minha”, lembra hoje, entre risos.
Passados 34 anos, Luiz está sentado no Morumbi, agora ao lado da mãe. Cena possível porque não é dia de jogo – Vera continua não acompanhando uma partida,mesmo após a morte do marido,em2004.
Em frente a uma câmera, Luiz conta que até hoje faz o mesmo trajeto do pai para chegar ao estádio. E lembra tantas outras histórias para o documentário “Soberano – Seis Vezes SãoPaulo”, produzido pela G7 Cinema. O filme, cujo lançamento está previsto para outubro, conta a história dos seis títulos nacionais do time – 1977, 1986, 1991, 2006, 2007 e 2008 – por meio de depoimentos de são-paulinos.
Testemunhos curiosos e emocionados revelam o fanatismo dos torcedores. Há quem desague suas memórias contando, lance a lance, uma partida inesquecível. Como a final de 1986.
“Entre os Campeonatos Brasileiros, foi a partida mais emocionante. Não só para são-paulino. Para qualquer torcedor”, defende Luís Cláudio da Costa, 38.
Ele lembra detalhes do jogo contra o Guarani, que ocorreu em fevereiro de 1987. Começou com um gol contra do SãoPaulo. O time empatou ainda no tempo normal. Prorrogação, um gol do Guarani. “Eu estava com a camisa do time de 1977 na mão. Só resolvi vestir aos 14 minutos do segundo tempo. Aí veio o gol do Careca. Foi inacreditável.” A partida foi decidida nos pênaltis. Final: 4 a 3 para o São Paulo.
Luís Cláudio mostra o talismã que ganhou da madrinha. A ponta para rabiscos de caneta e conta, rindo: “Assim que viu a camisa de 77, a empregada lá de casa a jogou na cândida. Ainda pediu desculpa porque não conseguiu limpar tudo. Ela não sabia que eram autógrafos de jogadores”. Mesmo desbotada, a peça o acompanha em todos os jogos.
Pais e filhos
Entre as narrações, há espaço para o fio que amarra gerações. São pais e filhos unidos pela paixão pelo time.“Eu e meu pai discordamos em política, religião. Mas quando é futebol, não”, diz Álvaro Ferraz, 52.
Luiz Biskani conta que o trajeto até o estádio era a “hora da conversa”. O pai aproveitava a ocasião para aconselhar e dar
bronca. “O futebol nos aproximou. Não fez o respeito de pai se perder, mas levou a conversa a um patamar de igualdade.”
Carlos Port, 37, é do mesmo time: “Quando falamos de futebol, trato meu pai como um irmão mais velho, às vezes como filho”.
“Soberano” é o sexto documentário sobre times de futebol feito pela G7 Cinema. “Fiel”, que conta a trajetória de entrada e saída do Corinthians da segunda divisão, foi visto por quase 60 mil pessoas no cinema, onde foi lançado no início de abril. Só a pré venda do DVD, em maio, atingiu a marca de 25 mil unidades.
A fórmula, conta Gustavo Ioschpe, presidente da produtora, é “fazer filme não para o torcedor, mas pelo e com o torcedor”. Para “Soberano”, foram escolhidos cerca de 25 depoimentos entre mais de 3.400 colhidos no site www.filmesoberano.com.br.
Orçado em cerca de R$1,4 milhão, o longa ainda conta com depoimentos de ex e atuais protagonistas do time. Como RubensMinelli, técnico quel evou o São Paulo ao título de 1977. E os jogadores Serginho Chulapa, Careca e Raí. Muricy, que em 77 era jogador e hoje comanda a equipe hexacampeã, é uma das estrelas.
Sobre essas histórias, Gustavo faz mistério. Especialmente sobre a entrevista de cerca de uma hora e meia com o treinador. “Só posso dizer que o depoimento do Muricy foi espetacular.” Não é papo de são-paulino. O produtor é gremista. Já os dois diretores, Carlos Nader e Maurício Arruda, vestem a camisa tricolor.
Por: Ana Paula Boni
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Fonte: Revista da Folha
Filme Oficial do São Paulo Futebol Clube